sábado, 5 de dezembro de 2009

Por alguma razão misteriosa

Estão tentando dar pela segunda vez um golpe na síndica.
Convocaram uma assembleia para destituí - la do cargo no próximo dia 12 de dezembro. Estamos mobilizados angariando apoio e estudando estratégias de ação. Depois conto aqui a história em detalhes. Reproduzo abaixo uma carta minha aberta aos moradores. Abraços.
Por alguma razão misteriosa - Carta aos moradores.
Ócio é um problema. Faz a pessoa ficar frustrada, sem perspectiva. Da frustração à inveja é um passo. Se encontramos gente mais competente, mais bonita, mais inteligente, mais interessante do que nós queremos imediatamente destruí- la, pois ela é tudo o que nós não somos. A terapia ocupacional apareceu para dar o que fazer a quem não tem. Para dar razão à existência.
Um prédio residencial não deveria ser usado como terapia ocupacional. Cuidar de um prédio é coisa séria. Para quem entende e para quem gosta de trabalhar. É o caso da nossa síndica, que resolveu colocar sua força e capacidade de gerenciamento em benefício deste condomínio, o lugar que escolhemos para viver. Porque ela fez isso? Para se vingar (sic) ? Para provar que somos os bons? Para ter o que fazer? Para economizar 400 reais? Por favor, nos poupe. Este apartamento custou caro e foi pago e reformado por nós com muito suor. Aqui colocamos nossas esperanças e apostamos no nosso futuro. A síndica se tornou síndica porque viu que este prédio precisa de melhorias urgentes. Não queremos botar a perder o investimento que fizemos aqui. E quem não tem o que fazer que procure um terapeuta ocupacional. Conheço alguns e posso indicar, se quiserem.
Quem acusa a síndica disso e daquilo está projectando nela seus próprios demônios inconscientes. Ou ainda pior: Está simplesmente sendo maldoso, porque tem culpa no cartório e quer desviar a atenção dos condóminos do que realmente interessa: Os erros gritantes revelados na auditoria recém finalizada.
O pessoal ocioso deste prédio está atrapalhando o trabalho da síndica e prejudicando a todos, inclusive (sic) a eles mesmos. Não é o cúmulo da inteligência? É NOSSO DIREITO! gritam em nossos ouvidos. Socar seu próprio nariz também é seu direito. Mas a pergunta que deveria ser feita é: Qual é a escolha certa a fazer? É esta uma escolha inteligente? Qual é a minha real motivação (nunca honestamente declarada) ao querer atingir a síndica?
Nem vou me dar ao trabalho de comentar as ridículas acusações feitas à sindica. Só sendo completamente alienado para não perceber que são calúnias, pura invenção de má fé. As coisas começaram a mudar por aqui, para satisfação da maioria que elegeu a síndica, e isso incomodou esta turma que está há 15 anos no poder (fazendo besteira ou fazendo nada mesmo). Uma auditoria para quem não sabe não é uma opinião. É dado contábil, além de qualquer contestação. "Eu protesto contra esta auditoria", " nao concordo com este documento". É como dizer: "Sou contra a lei da gravidade!" Contra fato, meu caro, não há argumento. E os fatos estão ai, distribuídos em todos os apartamentos, para quem quiser ler.
"Mas nós moramos no prédio há quinze anos!" O que ouço nas entrelinhas é: "Mandamos no prédio há quinze anos". Tem algum trecho da convenção do prédio que diz que meu direito aumenta com o passagem do tempo? Quinze anos. Está mais que na hora de isso aqui mudar. Tudo já está mudando bem rápido. O bairro está se valorizando. O perfil do morador está mudando. Se este prédio fosse um carro, que carro seria? Um gol velho? Provavelmente. É assim que você quer ver seu prédio? Como um gol velho? Sinto, amigos. Eu não vejo nosso prédio como um gol velho. Conforme tudo se moderniza em volta (Duas linhas de metrô, novas avenidas e corredores, novos investimentos e grande valorização imobiliária), este prédio demostrou clara e honestamente seu desejo de se atualizar, com a eleição da nova síndica, para desespero da velha guarda da Portela, guardiã da tradição do atraso.
Mas adivinhe! As mesmas pessoas que querem tirar a síndica são as mesmas pessoas que eram conselheiras e não viram a quantidade de absurdos que levou este prédio a situação a que está hoje. Um poço sem fundo de irregularidades. Abandono e displicência. Já descobrimos em um ano muitas coisas erradas. Como é possível um conselheiro por quinze anos misteriosamente nunca ter visto nada? Despreparo? Motivos escusos? Vejamos exemplos. A luz do túnel do elevador era fornecida por um "puxadinho" do sistema de segurança central do elevador. Por isso tantas panes e tanta gente presa por anos. Como é possível? Nao temos bomba d'água para escoar o lodo que existe abaixo do prédio. Como é possível? Todos os prédios vizinhos a tem, porque é um equipamento necessário até para nossa segurança. É um absurdo não a termos. O Zelador embolsou 70 mil em poucos anos, de forma totalmente irregular, gerando enorme prejuízo legal e financeiro ao prédio. Como é possível? A pintura externa da parede do prédio não tem impermeabilização. A água está vagarosamente entrando em seu apartamento. Como é possível? Gasto médio anterior com material de limpeza era de 600 reais mensais. Nos três primeiros meses a síndica gastou 70 . Faltou? Não, sobrou. E o prédio ficou enfim limpo, já que o faxineiro foi obrigado a... vejam só...trabalhar! Encerramos a"continha" do prédio na loja de material de construção da esquina, sempre alta e mal explicada. Espaços públicos, áreas antes comuns tornaram-se privadas ao longo de décadas. A vaga na garagem de um morador foi simplesmente "surrupiada" e "dada"ao zelador. Mexeram recentemente na caixa de força do meu apartamento, gerando instabilidade na minha rede e pane temporária em aparelhos. Meu eletricista foi enfático: "Mexeram aqui". Ratos mortos apareceram no túnel do elevador, causando mau cheiro. Sabotaram a casa de bombas. Cansou? Quer mais? Basta pedir.
Perceba que o maior pesadelo dessa gente é ser desmascarada. São as mesmas pessoas que são (ou eram) beneficiadas e que cuidavam das contas do prédio e que endossaram esses absurdos. E agora vêm acusar a síndica de... por favor, leia você mesmo as acusações no pseudo - documento por eles enviado. Me dá náusea reproduzi-las aqui. Como é o prédio (País) que você quer deixar para seus filhos e para seus netos?
Vou dizer como tais absurdos foram possíveis. Primeiro: Exploração da ingenuidade de pessoas simples, facilmente manipuláveis, sem força para impor seus próprios posicionamentos. Segundo: Omissão de quem percebe as coisas mas não faz nada por preguiça ou por medo. É o ambiente ideal para expansão da bandalheira. Foi por conta dessa mesma omissão que na Europa floreceram movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Se você está comigo neste sentimento, faça sua parte. Cuidar do que é seu dá trabalho. Se você sua a camisa para ganhar dinheiro como eu, dê - se ao trabalho de ler a auditoria e descubra como foi usado o seu dinheiro neste prédio nos últimos anos. Se dinheiro cai do céu para você, então use o documento como papel higiénico.
Para terminar, que eu tenho que ir trabalhar: Queremos fazer um monte de coisas neste prédio, mas não há dinheiro. E não há como ter dinheiro. Não com as coisas como estão. Este prédio é totalmente inviável. Foi feito assim por alguma razão misteriosa. Gasta mais do que pode e gasta mal. É onde queremos mexer. Com as mudanças propostas, a tendência com o tempo é sobrar mais dinheiro para investir. Sete funcionários neste prédio é um absurdo de desperdício. Não precisamos. É bom apenas para alguns, por alguma razão misteriosa. Não somos uma repartição pública. Não somos o clube de campo dos funcionários. Só há uma solução para este prédio, e ela não é fácil. Exige coragem realizar mudanças necessárias. Para colocar este prédio no século XXI. Para deixarmos de ser um gol velho. É isso que a síndica quer e é isso que está fazendo, para desespero do clube da grosseria, dos ex - beneficiados, dos ex - previlegiados. Dos ex - pertos. Mais uns anos de abandono e este prédio vai ruir. Ainda tem conserto. Será caro. Será difícil. Estamos preparados?
Você, que acredita na síndica, que concorda em parte comigo, escreve o final dessa história , com seu posicionamento frente a essa segunda tentativa golpista covarde. Não se iluda. Esse golpe não é contra a síndica. É contra você que a elegeu. Deixamos que jogassem no lixo 70 mil reais que eram do prédio, que eram seus. O que você vai fazer a respeito? Eu sei que é desagradável. É um saco. Também sei quanto vale a síndica. Casei - me com ela. Emprestei neste ano um pouco do nosso tempo privado para que ela cuidasse desse prédio semi - abandonado. Se vocês não a quiserem, pego de volta sem problemas. Na verdade, pensando só em mim, será bem melhor.
São Paulo, 03 de dezembro de 2009.
Andre Barreto - Marido da Síndica

domingo, 8 de novembro de 2009

Chucrovia

Quarta feira, 04/11/2009. Fui à audiência pública que tratou do prolongamento da avenida Chucri Zaidan. Representando o poder público , estavam presentes o Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, secretário municipal do verde e do meio ambiente, Roberto Molin, da EMURB, do Geólogo Fernando F. Kertzman da Geotec, empresa que fará o estudo do impacto ambiental da obra e de inúmeras outras entidades da sociedade civil, sociedades de bairro, do parque Burle Marx, pessoas comuns e proprietários de imóveis que serão desapropriados. Essa obra incluirá uma nova ponte na altura do Parque Burle Marx. Somará às outras obras de melhoria do transporte do meu bairro, como o metrô linha 5 lilás, o metrô linha 17 ouro, o corredor Diadema - Brooklin, o prolongamento da Avenida Roberto Marinho, a despoluição do Rio Pinheiros, a ciclovia na marginal, entre outros. Sentados ao meu lado no auditório, meu irmão, Victor Barreto, ciclo – ativista de São José dos Campos, André Pasqualini, ciclo - ativista, fundador do combativo site Ciclo Br

http://www.ciclobr.com.br/

, Felipe Aragonez, Bike reporter da rádio Eldorado

http://falansterios.blogspot.com/

, Ricardo Corrêa, arquiteto responsável pelo plano cicloviário de Porto Alegre, do grupo TC Urbes

http://tcurbes.blogspot.com/

O Ricardo criou um projeto cicloviário para o Bairro de Santo Amaro. http://tcurbes.blogspot.com/2009/05/plano-cicloviario-integrado-da.html

Após uma rápida introdução que incluía um vídeo inédito do projeto, representantes da sociedade civil foram para a tributa falar. Não faço parte do grupo de moradores do bairro que expressou repúdio à obra. Sei que essa nova avenida trará melhorias para a região. Peneirando as bobagens, certas colocações me pareceram pertinentes, e todos ganharemos se forem incorporadas ao projeto final. Exemplos? O corredor de ônibus da Av. Berrini precisa se integrar com a nova avenida. A ponte não deve prejudicar ou invadir o espaço do Parque Burle Marx. A ciclovia (chucrovia?) deve aparecer prevista já no projeto da Avenida, como manda a lei, e não numa via paralela de tráfego mais leve. A via expressa do lado do Morumbi precisa suportar o trânsito pesado que a nova avenida trará.

A seguir apresento trechos da audiência capturados pela câmera do meu celular.

O filme inédito de três minutos apresentado na abertura: http://www.youtube.com/watch?v=t-QNuLcd_mY

As colocações iniciais do André Pasqualini:

http://www.youtube.com/watch?v=UMlkurU0ybM

As colocações do Felipe Aragonez:

http://www.youtube.com/watch?v=dNVoU3p2W6c

A resposta do Roberto Molin

http://www.youtube.com/watch?v=tzgY0nUx48w

e do engenheiro responsável pelo projeto apresentado

http://www.youtube.com/watch?v=yxOxz4DYdZ8

a réplica do Pasqualini:

http://www.youtube.com/watch?v=lfK2S8qw1ko

Segundo a comissão presente, as colocações feitas serão estudadas e eventualmente incorporadas ao projeto final. A maior preocupação dos moradores que terão seus imóveis desapropriados era a data prevista para o início da obra e para as desapropriações. Ficou claro que nada acontecará antes do final de 2010, início de 2011. É um longo caminho legal. Depende de licença ambiental, de aprovação final do projeto executivo, de licitação pública. Outras audiências acontecerão, para submeter o projeto modificado novamente à apreciação da sociedade civil. A ciclovia prevista ao longo da Chucri Zaidan ligará o Parque Burle Marx ao parque linear previsto no prolongamento da Av. Roberto Marinho. Se a nova chucrovia sair do papel vai ser muito legal.

Meu irmão aproveitou o evento para convidar o Ricardo Corrêa da TC Urbes para uma visita a São José. Quem sabe a prefeitura de lá não se interessa por um projeto cicloviário completo, planejado para só para a cidade? Excelente iniciativa, Brother, para a cidade das Bikes com guidão em forma de lira. Se algo de concreto rolar, contarei aqui.

Vídeo: Passeio em uma das ciclovias de São José dos Campos, numa visita em Outubro de 2009. http://www.youtube.com/watch?v=-SBSNP9wP78

Boas pedaladas.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A chama do tititi

Contei aqui a história de como a Gis, minha mulher, se tornou síndica do prédio em que moramos

http://bcpandre.blogspot.com/2008/09/em-chamas.html

Contarei agora os acontecimentos seguintes. Vou me referir a Gis apenas como a síndica, para facilitar a narrativa. Após a ressaca da vitória, era comum ouvir nos corredores do prédio comentários da oposição do tipo Ih, isso aí não vai dar em nada... Com tanto por fazer, tantas melhorias abortadas por má administração, incompetência, irresponsabilidade, precisávamos aprender a lidar com a oposição ferida, que deixou claro de início que ia trabalhar contra. Tinham agora muito tempo ocioso, já que seu brinquedo preferido, o prédio, não estava mais disponível. O cheiro de coisa errada no ar ficava mais forte conforme a síndica tomava pé da situação. Na primeira semana chamou os sete funcionários para uma conversa. Estabeleceu novas normas de convivência. Novos procedimentos de rotina. Faxina geral nas escadas, áreas comuns. Um ato simbólico. Uma declaração de intenção. Melhorou as condições da guarita, a higiene dos banheiros, arrumou a bagunça das salas do térreo, usados como depósito de porcarias.

O zelador foi proibido de fazer obras em apartamentos no horário de trabalho. Foi obrigado a tirar seu carro da vaga usada irregularmente. Passou a cumprir o que descrevia seu contrato. Seguiu com a pequena revolução. Novo escalonamento de horário de folga. Corte de horas extras. Resultado imediato? Economia de uma pequena fortuna. O nosso caixa começou a melhorar.

Ralos de desperdício agora no radar. A conta permanente na loja de materiais de construção. Os gastos mensais com material de limpeza, em torno de R$600,00 por mês antes de agosto. A nova síndica gastou R$70,00 (setembro de 2008) em produtos que duraram até o natal.

Passada a lua de mel de algumas semanas, a administradora revelou seus velhos hábitos. Não faziam nada. Não atendiam telefone, não passavam informação. A síndica aguentou três meses até mudar a administração. Furor e indignação. A oposição, ainda abalada pela perda da eleição, saiu da toca disposta a arrancar a cabeça da síndica. Numa ação articulada, a administradora recusou-se a entregar os documentos e bloqueou a conta bancária do prédio. A oposição afinava o discurso e se preparava para a guerra. Convocaram uma assembléia extraordinária alegando que durante a eleição a síndica usou duas procurações irregulares para se eleger, e que seu mandato deveria ser anulado imediatamente. Cinco pessoas assinaram um abaixo assinado que sustentava a manobra. A tal assembléia extraordinária teria lugar em cinco dias.

A síndica averiguou se as procurações eram de fato irregulares. Pura invenção. As procurações estavam em ordem para votar na assembléia. Quem assinou o documento seria indiciado mais tarde a explicar em juízo o ocorrido.

Farsa desmontada, mudou - se a estratégia. Recorrer a interpretação do regimento interno à luz do código civil. Aí nosso novo administrador, o Dr. Edson, mostrou a que veio. Combateu a truculência com argumentos e amansou os ânimos dos moradores, que se exaltavam a cada novo boato. A tática era sempre a mesma. Criar uma pseudo - notícia comprometedora para a síndica, alimentando a chama do tititi. No último momento, conseguimos uma liminar da juíza da vara local invalidando a assembléia extraordinária. A senhora é porreta mesmo hein? Todo mundo querendo te derrubar e a senhora não cai! O comentário da funcionária diz tudo sobre aqueles dias. Na hora marcada da tal assembléia descemos todos para um ato público de repúdio à tentativa de golpe, e em apoio à síndica. Foi um dia porreta, uma vitória, uma consolidação da nova gestão.

Nos meses seguintes, novas baixarias. Acusaram-na de tudo. De falsidade ideológica (usar nome falso), de maus tratos aos funcionários, de querer dar o golpe no condomínio, de ser a culpada pela falta de energia elétrica na rua. De criar um clima de desarmonia no prédio. Bem, a maioria silenciosa resolveu sair da toca e participar da vida política do prédio. Eis a desarmonia a qual se referiram. Sem ter em quem mandar e a quem abusar, os ex - bacanas sofriam de vaidade ferida. Os funcionários, descontentes por se verem obrigados a... trabalhar, oscilavam em sua lealdade, na esperança de que a síndica não segurasse a pressão e eventualmente caisse. Não caiu. Nesses meses a força da síndica vinha da união de seu eleitorado, cansada dos desmandos do zelador e da petulância dos antigos caciques. Descobrimos com o tempo que a oposição mal entendia de leis, mal sabia interpretar um documento, mal sabia argumentar. Eram bons em fazer picuinha sistemática, e só. Eram um ou dois senhores metidos a sabidos mais um monte de paus mandados, que viviam se enrolando sozinhos. Quase engraçado, se não enchessem tanto o saco. Como essa senhora, que argumentou numa assembléia: Uma oposição que concorda com tudo é burra. Respondo com prazer: Uma oposição que questiona tudo é igualmente burra.

Continua...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Baião de dois

Imagens: Acima - Alexandre Murashima. Abaixo - Markus Thomas.
Voltando a falar de música, tive gratas surpresas neste mês de agosto. Enquanto todo mundo fugia da rua por causa da gripe suína, dois velhos amigos entravam no estúdio para espantar a má sorte em ótimas gravações. Ambos me presentearam com seus CDs. Agora entretanto, recebi na mesma semana os links do myspace de ambos, que irei partilhar aqui. Alexandre Murashima e Markus Thomas. Duas personalidades bem diferentes. O primeiro, meu parceiro desde 1999, dos tempos da faculdade de música. Introspectivo, não se deixem enganar por essa primeira impressão. Basta desembrulhar sua semi – acústica e Zebú se revela em explosão musical. Já era excelente guitarrista, e está agora aparecendo o compositor. O segundo é um ex – pupilo da escola. Seu talento já era óbvio lá pela sexta ou sétima série. Só que com este CD o Thomas se posicionou para muito além de seu mestre. Curtindo a vida, pegando onda, celebrando sua existência sem culpas. Divulgo aqui seu último trabalho. Chega de conversa. Vamos curtir. Vou pincelando faixa a faixa.
Primeiro o Murashima.
http://www.myspace.com/alexandremurashima Na barra da saia – Samba – funk. Vocais ao estilo Clube da esquina. Guitarra cortada, percutida. O clima impressionista. Passagens me lembram Jorge Benjor em Os alquimistas estão chegando. Enfim, entra o tema. Banda avança calibrada. Chama a atenção o entrosamento entre bateria e guitarra. A canção explode, implode, vai aos arroubos, nervosa. Muita dinâmica. Caos e desolamento. Crocodilos devorando um gnú. Pedrinho – Valsa – Jazz. Singela. Vai perguntando e respondendo, até baixar o clima Hermeto. Aí, dá uma virada, e vem de novo aquele sabor impressionista. Terá recebido a visita do espírito de Toninho Horta? O que será que o Murashima tem escutado ultimamente? Mais careta que as outras, é a minha preferida. És ou não Wes – Samba variado, cheio de sabores brasileiros, à la Marcos Valle. Aqui há mais espaço para solos e idéias melódicas mais livres do Mura. A cozinha vai assando o sambinha. De-repente surge à frente na estrada o João Donato. Ih, meu fusca 68 já ficou para trás. Depois do improviso volta o tema, com seu tempero carioque cousine.
Seguimos com o Markus Thomas.
Out of reach – Ótima melodia e arranjos. Hino à glória da juventude. Uma bela ponte no final, à la Magical Mistery Tour.
The secret – Markus é excelente melodista. Eis um ótimo exemplo. Perceba as sutis modulações e timing perfeito.
I´m in Love – Tratamento impecável dos instrumentos. Mais pop. Produção de primeira, guitarras, vocais, mixagem. É bom ver o Markus feliz. Fico feliz junto.
Fire up - Beach song. Belos vocais. Ótima mixagem. Para curtir o Reveillon. Aloha.
Sometimes - Voz e violão, sem disfarces. Mais um foxtrot. Observe como Markus passeia pelas texturas tonais e bridges sem perder a coerência interna da canção. Enjoy it.
Ghost town – Cola na cabeça. Alguém lembrou de Penny Lane? Hit para o verão. Markus a caminho da maestria nesta incrível arte de compor canções. Suas melodias vão se desdobrando, desdobrando, guardando surpresas logo ao virar da próxima esquina.
We-ve got soulJack Johnson na veia. Só que mais festivo. Mais vibrante. Impossível ficar parado.
Break your heart – Outro single para o verão 2010. Minha preferida, devo confessar. Tudo no lugar, with tenderness. But I haaaave toooo, Gô ô ô...

domingo, 9 de agosto de 2009

Não olhe

Entra ar. Sai ar.
"Venha ver isso! Muito legal.".. Não me movo.
Aconteceu há 23 anos
Algo
Que me mudou
Para sempre.
Caíram minhas defesas
Contra o fato básico
Estamos morrendo
Você e eu
Partiremos em breve.
Lembra-se?
Não.
Não se lembra.
Lembrar muda tudo.
Minuto a minuto.
A sua existência
Virando pó.
Queria porque queria
Saber a verdade
Agora não consigo
Esquecer "Venha logo... você está perdendo! " Permaneço sozinho.
Já perdi
Há muito tempo.
Tudo. Entra ar. Sai ar.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Terapia de casal

Imagem: Sistema AQAL (Wilber – 4)
Vou mediar o trabalho de Reich e Wilber. Quero legitimar no teórico minha (pretensiosa) abordagem Integral – Reichiana. Vou tentar entender primeiro porque Wilber http://www.kenwilber.com/home/landing/index.html se afastou das idéias de Reich. Embarcarei nesse trem só até a fase Wilber - 4 (Todas as linhas, todos os níveis, todos os quadrantes, todos os estados, todos os tipos). Deixemos a fase Wilber - 5 http://bcpandre.blogspot.com/2008/01/fase-cinco.html de fora por hora. Em O Espectro da consciência, http://www.amazon.com/Spectrum-Consciousness-Quest-Books/dp/0835606953 seu primeiro livro (e principal porta voz de sua trip reichiana - junguiana – fase 1) foi (e ainda é em muitos círculos) considerado a principal teorização no campo da teoria transpessoal já escrita. No livro, Wilber delineia o Centauro. O que é o Centauro? O Centauro emerge quando integramos com sucesso ego e corpo, e alcançamos o que o livro chamou de nível existencial. O nível existencial é um nível muito sofisticado de consciência. Muito raro também. Podemos chegar a essa integração através dos dois caminhos: Via corpo ou via ego. Se seguimos pelo corporal, Wilber recomenda as terapias reichianas. Bioenergética. Gestalterapia. Rolfing. Ponto para Reich. Os profissionais e gurus das corporais surfaram envaidecidos na onda Wilber – fase 1. Estão ainda lá hoje. Só que o livro é de 1977. A proposta Wilber – fase 1 ( "O trabalho no corpo pode ser um caminho direto para o Centauro") legitimou as abordagens corporais (nível dois – prânico/sexual) como se fossem existenciais ( nível seis ou nível do centauro – Veja seus trabalhos posteriores). Gato por lebre. A idéia do Centauro (endossada pelo Einstein da transpessoal!) foi reiteradamente citada e utilizada pelos caras do paradigma - corpo. A dupla Capra - Grof o exaltou em O ponto de mutação. O livro Corporificando a consciência de Theda Basso e Aidda Pustilnik dedica - lhe um capítulo inteiro. Susan Thesenga usa a idéia do espectro da consciência para criar um quadro resumido de crescimento psicológico – transpessoal em seu livro. Só que Wilber abandona o paradigma Reichiano (e também o Junguiano) no início dos anos 80. Reich some das suas páginas. Para falar dos Reichianos ele recorre a seu pupilo Alexander Lowen. Sua metodologia (chamada por ele mesmo de generalizações orientativas) não autoriza um autor controverso como Reich. Lowen é mais light e consensual. O tom com que Wilber se refere a Lowen é ácido. Lowen é, segundo Wilber, um divulgador do Bodyism, ou filosofia que eleva o corpo humano a um status que contribui para a atmosfera rasa – superficial (flatland), estimulando o clima de muita amplitude e pouca profundidade (descendent) da nossa época ( What ?Ver Wilber – fase 4. Os livros da década de 90). Lowen não reconhece a patologia narcisista como originária do fulcro dois (Borderline - Mahler/Masterson/ Wilber), e mantém – se fiel à visão Reichiana de origem do narcisismo: Fulcro três ou fase genital infantil/edipiana (Ver "Narcisismo", do Lowen). Em Up from Eden, Wilber dá algumas pistas do seu afastamento de Reich, subscrevendo o filosofo alemão Jürgen Habermas. A sacada de Habermas expõe o reducionismo inerente aos sistemas de conhecimento da modernidade. Exemplos ? O marxismo (Que estabelece o nível material – econômico como causa de todos os outros fenômenos -A economia como o motor - causa da história). A psicanálise inicial (Que usa a libido como fonte - causa de tudo o que aconteceu a seguir. Para Freud, toda a civilização ocidental foi construída sobre uma repressão: A repressão do id). O equivoco aqui, para Habermas/Wilber é entender um determinado nível (um/material ou dois/prânico) não como estrutura através da qual emergem criativamente os níveis subseqüentes (Ver: Vinte princípios de todo hólon), mas como agente ou paradigma causador, subjugando tremendamente o Kosmos. Cerceando sua criatividade e o seu impulso nato para a transcendência. Pior! Inviabilizando o plano de integração de todo o conhecimento humano que este autor já esboçava no início da década de 90, através de suas generalizações orientativas. Deste ponto de vista, Wilhelm Reich caiu no mesmo reducionismo de Freud. Enquanto Freud (para os Reichianos) foi bundão e abandonou a libido, Reich se embrenhou pelo labirinto libidinal. Partiu da função vida para construir o sistema terapêutico mais interessante e cheio de insight que o século viu. Os psicanalistas abandonaram totalmente Reich (em parte por pavor não assumido do seu próprio édipo. Ninguém em sã consciência quer mexer nessa casa de marimbondo. É preciso culhões para ser Reichiano!) e abraçaram a psicologia do ego, de cuja fonte Wilber beberá meio século depois- Voltarei a isso. Reich parte da função vida e desta deduz (e reduz) todo o resto. Sua equação funcional descreve a consciência humana com tudo o que ela implica (função mental incluída) como originada na pulsação energética. O mérito do argumento de Habermas - Wilber é demonstrar como um nível superior na cadeia da evolução (como a mente a habilidade de comunicação, habilidade de raciocínio matemático, a habilidade de estabelecer um diálogo, etc.) não pode ser causado por um nível inferior, já que de muitos modos transcende este, se sobrepõe a este, interfere neste. Por ter o nível anterior como base de lançamento e não como causa, por essa exata razão pode transcendê - lo, dissociá-lo, reprimi-lo, integrá-lo. Usar a energia prânica como paradigma para a consciência o fez alvo da crítica epistemológica de Habermas - Wilber. A crítica invalida a práxis Reichiana? No! A equação funcional de Reich ainda é válida para auto – percepção e consciência de formas vivas mais primárias. São válidas, portanto, dentro do nível vida (com desdobramentos interessantes no nível da mente, sem dúvida. Mas desdobramentos de efeito, nunca de causa, como acreditava Reich). A ameba realmente se percebe enquanto caminha; Enquanto seu sistema energético pulsa, avançando às apalpadelas e irritando sua membrana. Esse movimento realmente induz uma proto – percepção interior, pulsão ou consciência primitiva. No homem parece que a coisa é mais complicada. Como qualquer sistema, quando sob o crivo de Wilber, a Reichiana ( em especial a análise de caráter e a vegetoterapia) renasce e se reposiciona no mapa AQAL (todos os quadrantes – todos os níveis). Ganha relevância nova, como paradigma validado em determinados contextos. Numa abordagem de nível, a psicologia Reichiana é preciosa para patologias de fulcro dois - três principalmente - quatro. Numa abordagem de quadrante, para o quadrante superior direito. Como abordagem de linha, como uma linha de desenvolvimento do circuito energético - orgonomico ou linha de desenvolvimento da pulsão libidinal. Voltarei a isso depois. Bem, chega. Vou - me. Se você ainda está aí, de duas uma: Ou gosta muito de Reich ou do Wilber. Parece que os dois caras, antes amigos, deram um tempo. Só que a relação tem potencial! E a minha cota será conduzir essa terapia de"casal". Que pretensão, né ! Fui.

domingo, 12 de julho de 2009

Escolha este

Acima: Alexander Lowen em ação.
Comecei revisão do tema estruturas de Caráter. O assunto é básico em terapia corporal, com sua abordagem de tipos rica em detalhes e descrições. Estou usando o livro O corpo em terapia, do Alexander Lowen. É seu melhor livro. Lowen era ótimo terapeuta, mas não era o mesmo como escritor, para usar um eufemismo. Se tiver que ler apenas um, escolha este. Quando o escreveu, Lowen ainda não era o pop star que viria a ser mais tarde, com o boom das terapias corporais. Há uma preocupação com o conteúdo, com a consistência e com a precisão científica. O corpo em terapia está para Lowen assim como Análise do caráter está para Reich. É um livro que consolida o autor, colaborando para a descrição e discussão do tema do caráter. Para os reichianos, o caráter é a estrutura básica que molda nossa vida inconsciente. É um atalho de acesso direto ao eu pré-edipiano. O bacana do caráter é que ele está escrito no nosso corpo, e revela sem rodeios nossa história pessoal. O caráter molda o corpo de um jeito específico, conforme a energia libidinal abre o caminho por entre os bloqueios que criamos durante o crescimento . Não dá para o bom terapeuta passar batido por isso aqui. O material é muito rico e é estudado por muita gente. Retornando a contribuição de Lowen: Ele descarta o conceito de fase anal psicanalitica. Justifica dizendo que na época de Freud e Reich a Europa enfrentou guerras e as condições sanitárias eram precárias. Ninguém se limpava direito. Não corresponde à realidade da América, argumenta. Também gosto da rica discussão sobre o caráter oral, e analogias que ele estabelece com a bipolaridade. Suas oscilações cíclicas entre elação e depressão. Interessante sua visão a respeito dos caráteres agressivo - masculino e passivo - feminino. São do tipo pré - genital, argumenta, em desacordo com Baker. Lowen foi um legítimo self made man. Traduziu as lições de Reich para o espírito do business americano. Inventou a aula de bioenergética e ganhou muito dinheiro. Surfou na moda das terapias corporais das décadas de 60 e 70. Tudo nele é prático. Ele é para fora na mesma proporção em que Boadella é para dentro. O corpo em terapia posiciona hierarquicamente o tipo psicopata entre o tipo oral e o tipo masoquista. Apresenta- o como um tipo quase oral: Um carente que escolheu dar porrada em vez de chorar (oral) ou se lamentar(masoquista). A obra traz descrições de bloqueios corporais, elogia o mestre Reich e narra a evolução histórica do estudo do caráter. O resumo apresentado aqui trata apenas dessa parte do livro. Estudar o seu caráter dará dicas preciosas sobre seu funcionamento emocional, sobre seu sistema de valores, sobre a estrutura do seu corpo e sobre muita coisa em você que você nem suspeita. Apenas lembre-se: Você é muito mais que seu caráter. Ele é só a sua defesa preferida. Você é muito maior. Sobre o livro, vale a leitura. Para encontrar pistas sobre qual é a sua defesa preferida, acesse o link abaixo e leia meu resumo. http://bcpandrebcp.blogspot.com/2009/07/analise-do-carater-alexander-lowen.html Hugs